terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Homem da Torre (ou Imo)


Construíra a torre e se escondera nela.
De tudo e de todos.
O tempo passou e, com ele, todos se foram.
Mas sempre vinham à torre os que o amavam.

Fora um dia um homem amável.
Daqueles que dão flores para a amada e saúda os gentis.
Mas um dia, fatídico dia, fora apunhalado pelo amor
E perdeu toda a fé no calor do próximo.

Escondido na sua torre,
Não se via mais do que o seu rosto, se se tivesse sorte.
Comia? Vestia? Amava?
Ainda amava?

A torre, feita de pedra, exibia suas brechas.
Mas mesmo com os olhos muito argutos
Não se podia ver muita coisa,
Tamanha a escuridão de seu lar.

Eis que um dia, no céu de estrelas,
Rebentou violenta tempestade,
Que transbordou rios e destruiu casas.
Deixando todos sem lar, comida e em estado de pânico.

Para a surpresa de todos,
O homem que há muito, muito tempo se escondera na sua torre
Abriu-lhes as portas de sua casa, e fito impassível no seu olhar,
Deu-lhes comida, abrigo e cobertores.

No mais, silêncio.

Não se sabe quanto tempo ficaram ali...
Não cabe medi-lo, alçá-lo, meça-lo.
Como um profundo sono,
Houvera início e fim.

Quanto àqueles que amavam o homem,
Melhor lhes teria sido perecer vítimas da tempestade.
Pois diante deste, descobriram-no escondido.
Muito mais escondido em seu imo do que achavam.

Jamais iriam reencontrá-lo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Acalanto

Teu texto veio em forma de acalanto
Para aquecer minha noite (que era fria)
Cubri-me do som de tua poesia
Pra proteger-me do silêncio e da saudade

E enquanto cai do céu a tempestade,
e enquanto cai do peito o pranto mudo,
teu verso me cai feito uma promessa...
Uma promessa de dias mais bonitos!


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Do teu amor



És tu a deusa de minhas preces.
Das noites sem sono, das noites de frio.
Que me aquece a cama com sonhos muito bonitos.
E me aperta as mãos quando eu tenho medo.

E quando me tens tão frágil em teus braços,
Acarinha-me os cabelos,
Aperta-me ao corpo,
E ri.

Ouço o teu coração bater tão forte.
E o calor que vem das tuas mãos me faz menino.
Sou dependente desses teus abraços, e
Do teu amor.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Partida

Em geral pensamos que partir é querer ficar longe... Muitas vezes, é. Outras vezes, não.
Há quem parta por querer ficar perto demais... De um jeito que a distância, mesmo quando pequena, aperta o peito. Há quem parta por medo de ver o outro partir antes.
Há pessoas que partem aos poucos para não terem que partir de repente... Vão-se primeiro na fala, depois nos olhos e depois partem de corpo inteiro. Há quem prefira partir a ter seu coração partido.
A partida é mais presente em nossas vidas do que pensamos ou do que desejamos que seja.
A dor do esquecimento é a dor da partida, quando o que foi torna-se, definitivamente, o que nunca mais será. Crescer é um movimento de partida: partimos de nós mesmos para nós mesmos, incessantemente.
Do riso da criança para as lágrimas do jovem inseguro... Das responsabilidades do adulto à saudade do homem velho.
Partimos do início ao fim: do ventre para o mundo, do mundo para o Desconhecido.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Notas de um compositor

Sofia apareceu-me de repente e do nada, como um sonho. Pediu-me uma canção. Eu dei os únicos versos que tinha. Ela os fez vibrar em uma melodia triste... Chorei ao escutar minha tristeza ressoando em sua voz. Foi bonito. As pessoas que nos viam pensavam que éramos uma dupla... Creio que éramos mais: éramos um corpo. Eu era o pensamento, ela, o gesto. Eu era a ideia que ela fazia ação. Eu sonhava febril... E ela acordava, vibrante, meu sonhos. Eu criava, ela erguia. Imaginava e ela vivia. Eu era o desejo, a vontade... E ela, a melodia, esperando que a tocasse.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Presente

Eu vivo o agora,
Porque o antes me deixou chorando no portão de casa
E o futuro me espera com um olhar vazio e cansado.

Eu vivo agora,
Porque os planos que sonhei estão distantes,
mas você está aqui.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Há 10.000 anos atrás...

Texto publicado no site Recanto das Letras (http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/1503006) em 24.03.09. 
Foi nesse site que Beatrice me conheceu. 
Esse é um texto que publiquei na época, um ensaio.
Infelizmente, nunca mais postei textos lá, mas é um site muito bá!cana.
Espero que gostem. 
Não o li novamente, não queria reeditá-lo. 
Acho que faria isso se o lesse antes de postar.

ENSAIO

Já pensei em escrever um livro. Talvez ainda pense... Já quis um amor pra vida inteira, e ainda quero. Mas às vezes acho tão difícil escolher o café da manhã, imagine uma vida inteira... (- risos.)

Não imagino minha vida daqui há alguns anos, nem mesmo dois dias ou mais. Acho "planos" uma coisa chata! E até prefiro mais a loucura do que a razão; e o espontâneo do que o racional.

Acho mais legal escrever textos do que poesia. Poesia é uma coisa muito misteriosa e dúbia (- quem sabe até mágica.). O poeta morre sem "entender" o que quis escrever, e quem lê morre acreditando que "entendeu" alguma coisa. - risos. Acho até que vou morrer sem entender metade das coisas que queria.

Acredito em Deus, no amor, em fadas, no natal! E acredito que não preciso falar disso o tempo todo. A fé é necessária como "o pão e o vinho"!

Prefiro mulheres de beleza crua do que as "Barbie´s" que andam por aí! Prefiro o bom samba do Chico Buarque ao funk ‘CRÉU’! Mas, enfim, defendo toda democracia!

Sofro com o silêncio do inimigo, com a saudade do ex-amigo e hoje sei que o mal não foi ter medo, é não ter dito (!).

(...)

Meus olhos são mais saudades do que esperança.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma mulher sob o sol

Helena estranhava o sol como se a noite tivesse partido mais cedo. Gostava da noite: a noite namorava-lhe as curvas, os olhos pintados, a silhueta recortada sob a luz do poste. A manhã não... A manhã parecia multiplicar-lhe as rugas, as contas, as lembranças e a solidão. A manhã, do outro lado da janela, não lhe trazia promessas ou planos: era como um grande vazio, um clarão sem sentido. O barulho dos carros, das crianças e supermercados perturbava seu silêncio conformado. As pessoas da manhã lhe eram alheias, não lhe conheciam, tampouco a queriam conhecer. Andavam de um lado para o outro como se zombassem dela... Ou pior, como se não a vissem. À noite, era diferente: as pessoas a viam, cobiçavam-na, invejavam-na, lançavam-lhe olhares furtivos ou de clara reprovação.  À noite, sua sombra crescia, tomava a calçada e ela sentia algum orgulho da vida que, horas antes, envergonhava-a. Poderia até ser que as pessoas da noite fossem as mesmas da manhã. Mas de noite, elas não queriam ser as mesmas... Helena caminhava, praguejando contra o sol como se ele tivesse roubado sua sombra na calçada. Sob a luz do sol, sentia-se nada... Olhava as pessoas que não a viam e pensava "ser de todo mundo é que nem ser de ninguém".


domingo, 29 de janeiro de 2012

Sândalo

“O sândalo perfuma o machado que o feriu...”
(Legião Urbana, Mil pedaços)

Incendiaste o meu rio com sândalo.
Eu escutei o teu riso, longe.
Tive um susto...
Ferido a vaidade, corri pros teus sinais.

Próximo do rio,
Vi-te refletida nas águas.
(As minhas águas.)
Vi que estavas nua.

Balançavas as mãos, mansa.
Vinham as primeiras ondas
Oscilantes do centro em minha direção.
Senti medo.

Fugi.
Corri o mais longe que podia.
Vi-me perdido.
Até que veio à narina o cheiro do sândalo.

Deixei-me guiar.
E fui, passo a passo, ao teu encontro.
Desvencilhando de minhas roupas
Pra te encontrar.

Trecho do livro "Quincas Borba"

Falar de Machado é um risco! Porque ele é um daqueles (raros) artistas que possuem uma obra tão completa que é praticamente impossível elogiá-la sem deixar qualidades únicas de fora. Escolhi um trecho da obra “Quincas Borba” para dividir com vocês que sempre me impressiona quando o leio. Mas é claro: recomendo a leitura do livro inteiro – uma experiência fantástica! Acontece que neste trecho, em especial, tudo me tira o fôlego – a narrativa, a descrição das sensações da personagem, a declaração que lhe fora feita... Para contextualizar: no trecho, a personagem Sofia relembra a declaração que outra personagem, Carlos Maria, fizera-lhe na noite anterior:

Posta à janela, dali a meia hora, Sofia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as que se levan-tavam e desfaziam à entrada da barra. A imaginosa dama pergun-tava a si mesma se aquilo era a valsa das águas, e deixava-se ir por essa torrente abaixo, sem velas nem remos. Deu consigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando os sinais do homem que ali estivera, na antevéspera, alta noite. . . Não juro, mas cuido que achou os sinais. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação
"A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração sabe que batia pela senhora."
Sofia teve um calafrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo"A noite era clara..."




Assim como Sofia, passei tempos e tempos rememorando essas palavras... “A noite era clara...”