quinta-feira, 7 de junho de 2012

A imaginação


Dos dedos do artista
saem coisas bonitas
e preciosas como arco-íris,
vento e sol.

Dos dedos do artista
saem rios, animais
e também uma chuva
azul com águas.

Dos dedos do artista
saem livros, papeis
e também lápis
coloridos e brilhantes.

(Ismenia Poliane) 

(Ismenia)

terça-feira, 5 de junho de 2012

A dama por detrás do rosto, o rosto por detrás da tela.


Para pintá-la precisava de certo distanciamento. Afastava-se do calor dos braços macios, do aroma de fruta doce... Só o que se prendia a ele era o olhar – firme, profundo. Costumava dizer para Luísa que ela tinha olhos de enxergar por inteiro. Seu olhar desvendava tudo: o ciúme, a melancolia, a saudade... Como era difícil manter os olhos nos olhos dela sem perder-se, sem esquecer da tela, da obra, de tudo! Engolia em seco o desejo. Ela não era sua. Não naquele quadro. Ela era do mundo. De todos que a mirassem, que admirassem seus cabelos cheios, que tentassem adivinhar quem era a dama por detrás daquele rosto mudo. Que tristeza a fazia quieta? Que amante a fazia nua? Seus mistérios de agora seriam mistérios de outros tempos. Seus segredos girariam sobre outras cabeças, sem resposta, sem cessar. Era dele a missão de fazê-la eterna. De gravar na tela aquele olhar que o invadia.
Pincelada por pincelada, o suor dele, o cansaço dela. Ele não exigia de Luísa que ficasse imóvel, só pedia para que sustentasse o olhar. Ela não se queixava, não questionava. Entendia a brasa nos olhos dele e sabia que era uma brasa diferente de quando eles se tocavam. Compreendia os movimentos agitados: mudanças de ângulo, o olhar querendo dividir-se entre ela na tela e ela na rede. Se ele partisse no meio naquele momento, ela entenderia... Sentia uma loucura parecida quando subia no palco. O êxtase, era o que queria do público. Doava-se inteira por isso. Doava-se sem medo por um segundo de êxtase da platéia.
Também era atriz quando posava para ele. Ele, seu diretor, preparava a luz, a posição de seu corpo, o cenário. Preparava até o seu silêncio: por vezes pintava-a de lábios entreabertos como se estivesse prestes a dizer... E nunca dissesse. Em outras, pintava-a de olhos perdidos, como se seu silêncio fosse o de uma recordação. Ele era minimalista em sua arte. E ela respeitava essa entrega. Queria ajudá-lo como pudesse. Não esperava ser nenhuma grande musa. Para ela, não havia nada de fantástico em seu rosto comum. Nada que não se achasse na mulher da padaria. Mas ele via algo. Algo em seu olhar.
Quando ele sentava-se ao lado dela, ela entendia que havia acabado. O pintor repousara, enfim. Ele não mostrava logo o resultado. Queria olhar um pouco mais antes de apresentar-lhe a versão definitiva. Por vezes, nunca a mostrava. “Uma peça ruim?”, Luísa perguntava. Ele aquiescia com um sorriso. Então, como se nunca houvesse ocorrido, a distância se desfazia em um enlace de corpos.

sábado, 2 de junho de 2012

A chuva e dança, saudade de minha infância


Se há uma coisa da qual sinto saudades,
Nos dias de melancolia,
É da chuva.
Mais especificamente, de dançar na chuva.

Sinto saudades de correr,
De braços abertos,
Com os moleques e meninas de minha infância,
Que desconheciam a tristeza de um bairro pobre.

Ah, se vocês soubessem como eu sinto saudades disto.

Lembro-me de chutar poças de água,
Às quais encontrava no caminho.
E tarde da noite, quando não do grito de meus pais,
Voltava pra casa, todo sujo de lama.

Depois de um tempo,
Que não demorou muito,
Fui proibido pelos meus pais de sair de casa, quando chuva.
Nem é preciso dizer que fora uma tortura para mim.

Até que um dia eu cresci. Claro,
Ainda ouvindo de minha mãe, não mais do meu pai,
A restrição de não mais sair, quando chuva,
Mas era tarde demais, eu dizia.

Pois agora adulto eu era 1/bilionésimo dono do meu destino.

Infelizmente, já não tinha mais graça sair de casa neste tempo.
Pois eu não mais via os moleques e as meninas de minha infância,
Mas adolescentes como eu, alguns já adultos.
E eu morria de vergonha de chutar poças de água.

Daí, então,
Resolvi olhar os que agora
Chutam as poças,
Da minha janela. 

Mulher sem nome próprio

- Bom dia. Preciso falar com... Com a...
Com quem era mesmo? Se bem que tanto fazia. Quem quer que fosse, de nada valeria. Necessidade não tem nome, tem pressa.
E daí se não lembrasse o nome dela? Tanta gente que ele não sabia o nome. Tanta gente que ele sabia o nome e não se importava. Ninguém precisava ter nome. Nome próprio... Próprio para quê? O nome não garante nada. O que importa é a serventia. Isso sim é importante. As pessoas deveriam ser chamadas pela sua área de interesse. O motorista, por exemplo, ele era o TRANSPORTE. A vizinha era o PRAZER. O patrão era o DINHEIRO, claro. Muito mais fácil, muito mais franco.
- Com quem o senhor deseja falar?
Que bobagem! Com ninguém! Não tinha querer nessa rotina. Tinha dever. A vida inteira dele era um verbo no imperativo: “DESCE! ENTRA! ESTUDA! CRESCE! TRABALHA! CASA! TRABALHA! ACORDA! TRABALHA!”
- É... Quero falar com a...
Ela não tinha nome, como ele. Ele era alguém, alguém qualquer. Ela, pra ele, era ninguém, era nada. Era pior que a... Era uma. Qualquer uma. Mais uma. Mulher sem nome próprio.
- Quero falar com sua patroa.
- A dona Dalva?
- É, a dona Dalva.
Dalva, era esse o nome da necessidade. Podia ser gorda, magra, triste, feliz, saudável, moribunda... Que diferença fazia? Ela era a “dona Dalva” da secretária, o EMPRÉSTIMO dele, ninguém de tanta gente... E ele? Ele era um pronome indefinido. Um cismar silencioso. Um grito... Sufocado na garganta.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


Mais uma vez sonhei contigo, Jô.
Estavas tão linda e tão idílica que não resisti,
Corri em tua direção.
Mas não findo o teu encontro.
Assim mesmo não cansei.
Pela manhã, já não mais adormecido,
Me pus a pensar em ti,
E, assim, pensando,
Perdi-me em devaneios.
Não a sonhar romances fantásticos,
De finais novelescos,
Mas a pensar em coisas simples,
Como uma bucólica conversa, servido o café.
Delonga,
São sonhos que tenho.
Saudades. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Percurso

Percorro teu corpo, cada canto e recanto, cada pedaço, querendo entender teus mistérios e escutar teus silêncios... Percorro teus olhos e sinto que me percorre as veias, que me toma a noite e o peito. Invado-me de ti... Como o corpo que se invade da sede. Como o louco que se invade do sonho.

Distante

Há dias em que te sinto distante como se houvessem erguido mil muros entre meu corpo e o teu, como se minha voz caminhasse mil léguas até te alcançar.
Há dias em que te sinto distante, como se houvessem passado mil eras entre o que fomos e o que somos, como se não pudesse romper a distância entre nossas mãos.
E tudo que eu diria, se soubesse como, seriam mil razões para que ficasses... Repetiria mil vezes o quanto te quero por perto.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Balaio


Vieste

No balanço das águas,

Frágil,

Com a mais leve bruma.

Vestida num cetim bordado

De cores claras,

E margaridas.

Os lábios nus e os cabelos soltos,

Envoltos

Os pés de areia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Beijo inventado

Quando ele me disse que partia
Quis pedir para que ficasse,
Quis pedir para partir com ele,
Ao invés disso, disse apenas “adeus”

Para abrandar as dores da saudade
Compomos uma poesia
Para que fosse nossa ponte,
Nosso caminho traçado entre o presente e o passado

Lê-la seria como saborear um eterno beijo não-dado
Que seria o mais bonito de todos os beijos
Porque não seria vivido de um fôlego só

Seria dado sempre, a cada vez lida
E a cada vez dado, seria como outro
Como um beijo novo de dois antigos amantes

Uma poesia para amar de novo,
Ou para nunca deixar de amar...
Para inspirar outros beijos, de outras bocas,
De outros amores, de outros tempos...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Refletir-me

Encaro-me,
mas neste fitar
já não sou a mesma.

Os meus olhos postos em mim
invertem-me, revertem o movimento,
devolvem-me o olhar...
Convertem-me em algo novo -
os mesmos olhos com outro olhar.

Neste cismar, penso-me;
Em me pensar, perco-me;
Em me perder, mudo-me.

Em meu olhar, busco-me:
busco a outra sobre a mesma,
busco a mesma sob a outra.