quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Consolo

Para tudo nessa vida há consolo, minha mãe já dizia. A viúva se consola da perda do marido, mais dia ou menos dia. O bêbado se consola da bebedeira do outro dia, nem que seja no bojo de outra bebida. O desiludido se consola da ilusão primeira, cedendo à outra ilusão, ainda mais faceira. O trabalhador exausto se consola da vida amarga em um sonho doce e a dona de casa sofrida liga a TV e se sente menos desgraçada ao ver tantas desgraças que o jornal anuncia todo dia. Consolo... Ele está em qualquer lugar quando se está disposto a encontrá-lo. Há quem diga que o céu é o consolo dos vivos. Há quem ache que a morte é o consolo da vida, como se, sob a terra, aguardasse-nos o consolo de toda dor que sofremos sobre ela. A fé consola os que acreditam. O prazer, os que o desfrutam. A música, os que param para senti-la. Eu, por exemplo, consolo-me com palavras: escrevo-as, leio-as, aventuro-me em pretéritos imperfeitos e logo, logo, reconcilio-me com o mundo e comigo.

No fim, a fome.

Encontrei um homem em seu fim... Seu olhar já se desencontrava do mundo e de mim.  Postei-me a seu lado enquanto a morte lhe aguardava, maternal, e ele me confidenciou: “Faltaram”. Faltaram? Mas quem? Quem faltara a este pobre diabo, justo na hora final? A esposa, os filhos, amigos? “Quem faltou, meu senhor?”. E ele me respondeu: “Faltaram feitos, minha filha... Faltaram fatos, festas, fotografias... Faltei... Faltei comigo mesmo. Faltou firmeza, força, folia! Faltou fome... Faltou fome de viver”. E assim se foi com sua fome, com sua sede de ter sido mais de si.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reprise


Eu me repito sempre.

Mais que isso: eu me insisto, numa ânsia visceral de me fazer existir...

                Como o bem-te-vi que anuncia seu nome,

proclamando seu ser contra o céu.
 
                                                                        Eu me repito sempre,

feito um mantra ou algum refrão,

redescoberto a cada vez que se canta a canção.
 

Eu me repito em prosa, em verso e em papos por telefone...

Me repito em gritos, sussurros e no silêncio de me saber só.

Me reitero, persisto, persigo o sentido

daquilo que ecoa aqui – dentro de mim, dentro de mim.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando se abre a cortina


A cortina aberta revela um outro mundo...

Uma outra sede, que não é nossa, mas que sentimos...

Uma outra ferida, que não a nossa, mas que nos sangra...

Um outro jeito de doer, de sentir fome...

Outra maneira de arder e sentir frio...

E a violência nos atinge, mesmo incólumes

E o aperto nos excita, mesmo alheio...

E ficamos presos numa estranha liberdade

de poder partir quando quiser, mas não ir embora...

E nos livramos, por alguns instantes, de nossas próprias dores,

que só cessam quanto tudo cessa,

quando tudo se reduz a nada mais.

A cortina aberta revela outro mundo,

outro modo de assistir à nossa vida.

Vizinhança


Meus vizinhos, conheci-os todos de relance.

Relance de alegrias, de perdas e amores...

Conheci-os em gritos, em gemidos, em risadas

que escapavam do outro lado do muro,

muito mais íntimos que os cumprimentos vazios

que trocávamos  frente ao portão...


Meus vizinhos, os próximos-distantes,

só os conheci por acaso,

por uma arbitrária convivência lado-a-lado.

Só os entendi pelo hábito

de, volta e meia, romper o muro

erguido entre nossas rotinas.
 

Meus vizinhos diariamente invadiam minha vida com suas vidas,

adentravam minha casa com sua festas, discussões e reformas,

mas de um jeito tão natural e breve

que quase não me perdôo

por não ter mais que um cumprimento vazio

a oferecer frente ao portão.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Num dia claro de verão...

"Que a poesia desse instante me roube a graça
e que a mulher que amo, pela minha insensatez,
me perdoe... Pois meu amor bateu a minha porta,
e vestia tons claros num dia claro de verão."

(Ismael Alves num dia claro de verão)




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Em retalhos

Quando a noite se reparte em luzes, acendendo postes, faróis, letreiros em néon...
E o cansaço da vida se reparte em suspiros, sutis desabafos de um dia ruim...
Quando o olhar se perde no tempo, repartindo-se entre o ontem, o agora e um amanhã turvo...
E os teus braços me alcançam em retalhos, entre  a ternura e a distância...
O mundo inteiro parece caber num grito, num sussurro de adeus, neste texto.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O navegante, o navegar



Me sinto só!
Dói confessar isto.
Mas é esta minha única verdade.
A única.

O que minha vista alcança com estas lentes,
Que pouco a pouco (lentamente) se desgasta,
É um ínfimo sentimento de prazer,
Que jaz

E me traz agonia.

Navego, hoje, em mares nunca dantes navegados,
E em paragens em mim desconhecidas.
Para onde vou, pergunto.
E o coração surpreende

Estrangula-me em aperto.

E sinto vontade de chorar.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Além do primeiro ato

Antes do primeiro ato, o sonho.
Atrás de cortinas cerradas,
Deus sonhava que era homem e ria.
Todo mundo, todo medo, todo mito
esperava o seu início na coxia.

Junto ao primeiro ato, o verbo.
O início se confunde com seu anúncio
e o primeiro ato, então,
é reconhecer que a peça começou.
                                                                  
Depois do primeiro ato, segue a peça,
desenrolando-se como o fio de uma vida...
Se o fim da peça é silêncio,
só o próprio fim dirá ou calará um dia,
quando as cortinas se cerrarem, enterrando o sonho,         
retornando o medo e o mito à coxia.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Paz, de passagem

Queria celebrar os dias de paz
Que a tevê anuncia,
Que o jornal escancara,
E que a moça da rádio comemora, enquanto chora

Mas para mim não há paz
O que há é uma passagem, ilusória,
Entre o triunfo da falsa vitória
E o horror de outra guerra,
que já se faz.