quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tez e tecido

Tez e tecido, confundidos,
fundidos no toque dos dedos,
no roçar dos lábios...

A fibra da roupa eriça a fibra da pele...
Quero saber onde termina a camisola de cetim
E começa o cetim da tua pele.

Quero passear pelas tuas curvas
que o tecido fino brinca de manter à mostra,
mas ainda ocultas...

Eu quero tua fome e tua sede,
teu peso, sem pressa,
teu grito, sem dor...

Vem assim, de lingerie,
vestida só de desejo,
poesia em forma de mulher...

Vem inventar mil formas de ser minha mulher.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Chá mate amargo e morno



“Mate amargo, noite adentro estrada, estranha”*

Bebo chá mate,
Amargo e morno...
Sinto-me um torto...
Vão.

E mesmo, pois, a bebericá-lo, enaltecê-lo, findá-lo,
Sinto o gosto do amargo e do tostado
Preso entre os lábios,
E me dou ao direito de lambê-los lentamente.

Semicerro os olhos...

A xícara vazia de bebida,
A insensatez do gesto,
Vivaldi e suas quatro estações
São um trago só.

Olho pras horas:
Consomem-me as horas,
Os derives
E os deveres

Tragando-me o que o trago me não fez.

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* Trecho da música "Ilex paraguarienses" da banda Engenheiros do Hawaii.

(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?start=183&hl=en&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=wJeoHEfVkH--IM:&imgrefurl=http://abstratoreal.wordpress.com/2012/10/01/adeus-silencioso/&docid=nwLSGJ3nk55CYM&imgurl=http://abstratoreal.files.wordpress.com/2012/10/xicara.jpg&w=460&h=288&ei=_BAVUaPFCKPO0QHd44HIBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:96,s:100,i:292&iact=rc&dur=432&sig=110806949657666573050&page=9&tbnh=175&tbnw=284&ndsp=23&tx=152&ty=36)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O teu olhar quieto



Vamos nos dar as mãos
E nos olhar nos olhos.
Sei que o teu olhar castanho,
Substantivo,
E quieto
Confundir-se-á
Com os meus.
Ambos vãos.
A se ater e atear,
A se atar
Num lindo e deslumbrante
Delirante
Debater de asas.

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(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?hl=en&sa=X&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=06Y05-cYhpGHyM:&imgrefurl=http://gimulek.blogspot.com/2010/11/o-segredo-de-um-olhar.html&docid=_fLfpOx3U-WcxM&imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiItKugNI38HneIU8YnhWUUFGOn5u-bXuD7xO6zsK5vMgBB8UeAluFRH7vD3PGpe316jqBCAW7kjhs1ZumKgDRyMECRU3cNVm3XixnWp1OzuH3HUiCQUhwTucIMlhHZNj-ZrYYcKa7P2jc/s1600/Segredo%25252Bde%25252Bum%25252Bolhar.jpg&w=1128&h=760&ei=8tURUZr0EYmy9gT4voGoBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:49,s:0,i:238&iact=rc&dur=807&sig=110806949657666573050&page=3&tbnh=173&tbnw=274&start=40&ndsp=22&tx=113&ty=67)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À espera

Pulsam, em meu corpo, dois corações, duas alegrias, duas vidas...
Em meu ventre cresce um ventre pequenino, de menino,
e, em meu peito, a esperança de vê-lo fazer-se homem.

Cada dia é um dia a mais para senti-lo
e um dia a menos para o instante em que o terei nos braços,
para o dia em que descobrirei, um a um, seus traços...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Corda bamba

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha pode se machucar"
(João Bosco/Aldir Blanc)

Nem o equilíbrio, nem a queda
Nem tocar o céu, nem ceder ao chão
Nem o silêncio, tampouco o berro
Nenhum aplauso, nenhuma vaia...
Apenas um movimento incerto entre a partida e a estada.
 
Algo no meio, sem ser obstáculo
Algo se acaba, sem ser o fim
É um passo à frente, sem ter prosseguido,
um passo em falso entre o teto e o asfalto.

Um sonho oscila entre meu gesto e o teu,
tenta ser firme na corda bamba...
Cada gesto é um extremo da corda,
uma ponta do mundo,
um ponto a alcançar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                         
O sonho persiste na corda bamba
Só um fio frágil sob seus pés
o separa da iminência do chão,
da segura conclusão de que não voa.
 
Mas o sonho segue em frente,
sem perdas e sem ganhos,
sem certeza, sem espanto.
Avança, intrépido sonho!
Avança enquanto é tempo de avançar!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Consolo

Para tudo nessa vida há consolo, minha mãe já dizia. A viúva se consola da perda do marido, mais dia ou menos dia. O bêbado se consola da bebedeira do outro dia, nem que seja no bojo de outra bebida. O desiludido se consola da ilusão primeira, cedendo à outra ilusão, ainda mais faceira. O trabalhador exausto se consola da vida amarga em um sonho doce e a dona de casa sofrida liga a TV e se sente menos desgraçada ao ver tantas desgraças que o jornal anuncia todo dia. Consolo... Ele está em qualquer lugar quando se está disposto a encontrá-lo. Há quem diga que o céu é o consolo dos vivos. Há quem ache que a morte é o consolo da vida, como se, sob a terra, aguardasse-nos o consolo de toda dor que sofremos sobre ela. A fé consola os que acreditam. O prazer, os que o desfrutam. A música, os que param para senti-la. Eu, por exemplo, consolo-me com palavras: escrevo-as, leio-as, aventuro-me em pretéritos imperfeitos e logo, logo, reconcilio-me com o mundo e comigo.

No fim, a fome.

Encontrei um homem em seu fim... Seu olhar já se desencontrava do mundo e de mim.  Postei-me a seu lado enquanto a morte lhe aguardava, maternal, e ele me confidenciou: “Faltaram”. Faltaram? Mas quem? Quem faltara a este pobre diabo, justo na hora final? A esposa, os filhos, amigos? “Quem faltou, meu senhor?”. E ele me respondeu: “Faltaram feitos, minha filha... Faltaram fatos, festas, fotografias... Faltei... Faltei comigo mesmo. Faltou firmeza, força, folia! Faltou fome... Faltou fome de viver”. E assim se foi com sua fome, com sua sede de ter sido mais de si.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reprise


Eu me repito sempre.

Mais que isso: eu me insisto, numa ânsia visceral de me fazer existir...

                Como o bem-te-vi que anuncia seu nome,

proclamando seu ser contra o céu.
 
                                                                        Eu me repito sempre,

feito um mantra ou algum refrão,

redescoberto a cada vez que se canta a canção.
 

Eu me repito em prosa, em verso e em papos por telefone...

Me repito em gritos, sussurros e no silêncio de me saber só.

Me reitero, persisto, persigo o sentido

daquilo que ecoa aqui – dentro de mim, dentro de mim.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando se abre a cortina


A cortina aberta revela um outro mundo...

Uma outra sede, que não é nossa, mas que sentimos...

Uma outra ferida, que não a nossa, mas que nos sangra...

Um outro jeito de doer, de sentir fome...

Outra maneira de arder e sentir frio...

E a violência nos atinge, mesmo incólumes

E o aperto nos excita, mesmo alheio...

E ficamos presos numa estranha liberdade

de poder partir quando quiser, mas não ir embora...

E nos livramos, por alguns instantes, de nossas próprias dores,

que só cessam quanto tudo cessa,

quando tudo se reduz a nada mais.

A cortina aberta revela outro mundo,

outro modo de assistir à nossa vida.

Vizinhança


Meus vizinhos, conheci-os todos de relance.

Relance de alegrias, de perdas e amores...

Conheci-os em gritos, em gemidos, em risadas

que escapavam do outro lado do muro,

muito mais íntimos que os cumprimentos vazios

que trocávamos  frente ao portão...


Meus vizinhos, os próximos-distantes,

só os conheci por acaso,

por uma arbitrária convivência lado-a-lado.

Só os entendi pelo hábito

de, volta e meia, romper o muro

erguido entre nossas rotinas.
 

Meus vizinhos diariamente invadiam minha vida com suas vidas,

adentravam minha casa com sua festas, discussões e reformas,

mas de um jeito tão natural e breve

que quase não me perdôo

por não ter mais que um cumprimento vazio

a oferecer frente ao portão.