domingo, 3 de março de 2013

Maldades do tempo

Cada segundo te faz tão menino, brincando com o tempo!
E, ao mesmo tempo, cada segundo te faz tão mais e velho e cansado do tempo.
Ah! E agora, e esse passado que não passa, nem volta? Apenas dá voltas, persiste e assombra?
Maldades do tempo, que escreve um amanhã cheio de promessas sobre o teu ontem, esgotado de tanta esperança esquecida.

Prelúdio

Mas antes de morar em  mim, já estavas... Como o filme que se sabe o fim  ou o sorriso que se adivinha nos lábios de quem se quer. Já eras o início do amor que ainda não era. Eras a espera da história que ainda havíamos de contar.
Não descobri o caminho para tua vida, apenas fui trilhando os passos que teus olhos traçaram em mim.

Somos

Da manhã cheia à noite exausta,
do silêncio à canção,
do sereno à trovoada,
somos.

Do cinema à nossa casa,
da presença à solidão,
dos poemas às conversas
antes da noite chegar,
somos.

Da despedida ao reencontro,
do teclado ao violão,
dos meninos que já fomos
ao nosso menino que virá,
somos.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Tez e tecido

Tez e tecido, confundidos,
fundidos no toque dos dedos,
no roçar dos lábios...

A fibra da roupa eriça a fibra da pele...
Quero saber onde termina a camisola de cetim
E começa o cetim da tua pele.

Quero passear pelas tuas curvas
que o tecido fino brinca de manter à mostra,
mas ainda ocultas...

Eu quero tua fome e tua sede,
teu peso, sem pressa,
teu grito, sem dor...

Vem assim, de lingerie,
vestida só de desejo,
poesia em forma de mulher...

Vem inventar mil formas de ser minha mulher.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Chá mate amargo e morno



“Mate amargo, noite adentro estrada, estranha”*

Bebo chá mate,
Amargo e morno...
Sinto-me um torto...
Vão.

E mesmo, pois, a bebericá-lo, enaltecê-lo, findá-lo,
Sinto o gosto do amargo e do tostado
Preso entre os lábios,
E me dou ao direito de lambê-los lentamente.

Semicerro os olhos...

A xícara vazia de bebida,
A insensatez do gesto,
Vivaldi e suas quatro estações
São um trago só.

Olho pras horas:
Consomem-me as horas,
Os derives
E os deveres

Tragando-me o que o trago me não fez.

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* Trecho da música "Ilex paraguarienses" da banda Engenheiros do Hawaii.

(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?start=183&hl=en&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=wJeoHEfVkH--IM:&imgrefurl=http://abstratoreal.wordpress.com/2012/10/01/adeus-silencioso/&docid=nwLSGJ3nk55CYM&imgurl=http://abstratoreal.files.wordpress.com/2012/10/xicara.jpg&w=460&h=288&ei=_BAVUaPFCKPO0QHd44HIBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:96,s:100,i:292&iact=rc&dur=432&sig=110806949657666573050&page=9&tbnh=175&tbnw=284&ndsp=23&tx=152&ty=36)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O teu olhar quieto



Vamos nos dar as mãos
E nos olhar nos olhos.
Sei que o teu olhar castanho,
Substantivo,
E quieto
Confundir-se-á
Com os meus.
Ambos vãos.
A se ater e atear,
A se atar
Num lindo e deslumbrante
Delirante
Debater de asas.

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(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?hl=en&sa=X&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=06Y05-cYhpGHyM:&imgrefurl=http://gimulek.blogspot.com/2010/11/o-segredo-de-um-olhar.html&docid=_fLfpOx3U-WcxM&imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiItKugNI38HneIU8YnhWUUFGOn5u-bXuD7xO6zsK5vMgBB8UeAluFRH7vD3PGpe316jqBCAW7kjhs1ZumKgDRyMECRU3cNVm3XixnWp1OzuH3HUiCQUhwTucIMlhHZNj-ZrYYcKa7P2jc/s1600/Segredo%25252Bde%25252Bum%25252Bolhar.jpg&w=1128&h=760&ei=8tURUZr0EYmy9gT4voGoBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:49,s:0,i:238&iact=rc&dur=807&sig=110806949657666573050&page=3&tbnh=173&tbnw=274&start=40&ndsp=22&tx=113&ty=67)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À espera

Pulsam, em meu corpo, dois corações, duas alegrias, duas vidas...
Em meu ventre cresce um ventre pequenino, de menino,
e, em meu peito, a esperança de vê-lo fazer-se homem.

Cada dia é um dia a mais para senti-lo
e um dia a menos para o instante em que o terei nos braços,
para o dia em que descobrirei, um a um, seus traços...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Corda bamba

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha pode se machucar"
(João Bosco/Aldir Blanc)

Nem o equilíbrio, nem a queda
Nem tocar o céu, nem ceder ao chão
Nem o silêncio, tampouco o berro
Nenhum aplauso, nenhuma vaia...
Apenas um movimento incerto entre a partida e a estada.
 
Algo no meio, sem ser obstáculo
Algo se acaba, sem ser o fim
É um passo à frente, sem ter prosseguido,
um passo em falso entre o teto e o asfalto.

Um sonho oscila entre meu gesto e o teu,
tenta ser firme na corda bamba...
Cada gesto é um extremo da corda,
uma ponta do mundo,
um ponto a alcançar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                         
O sonho persiste na corda bamba
Só um fio frágil sob seus pés
o separa da iminência do chão,
da segura conclusão de que não voa.
 
Mas o sonho segue em frente,
sem perdas e sem ganhos,
sem certeza, sem espanto.
Avança, intrépido sonho!
Avança enquanto é tempo de avançar!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Consolo

Para tudo nessa vida há consolo, minha mãe já dizia. A viúva se consola da perda do marido, mais dia ou menos dia. O bêbado se consola da bebedeira do outro dia, nem que seja no bojo de outra bebida. O desiludido se consola da ilusão primeira, cedendo à outra ilusão, ainda mais faceira. O trabalhador exausto se consola da vida amarga em um sonho doce e a dona de casa sofrida liga a TV e se sente menos desgraçada ao ver tantas desgraças que o jornal anuncia todo dia. Consolo... Ele está em qualquer lugar quando se está disposto a encontrá-lo. Há quem diga que o céu é o consolo dos vivos. Há quem ache que a morte é o consolo da vida, como se, sob a terra, aguardasse-nos o consolo de toda dor que sofremos sobre ela. A fé consola os que acreditam. O prazer, os que o desfrutam. A música, os que param para senti-la. Eu, por exemplo, consolo-me com palavras: escrevo-as, leio-as, aventuro-me em pretéritos imperfeitos e logo, logo, reconcilio-me com o mundo e comigo.

No fim, a fome.

Encontrei um homem em seu fim... Seu olhar já se desencontrava do mundo e de mim.  Postei-me a seu lado enquanto a morte lhe aguardava, maternal, e ele me confidenciou: “Faltaram”. Faltaram? Mas quem? Quem faltara a este pobre diabo, justo na hora final? A esposa, os filhos, amigos? “Quem faltou, meu senhor?”. E ele me respondeu: “Faltaram feitos, minha filha... Faltaram fatos, festas, fotografias... Faltei... Faltei comigo mesmo. Faltou firmeza, força, folia! Faltou fome... Faltou fome de viver”. E assim se foi com sua fome, com sua sede de ter sido mais de si.