Dorme, menino,
no colo da lua,
no ventre da noite,
pedaço do céu...
Dorme sereno
como a chuva serena,
como a estrela menina
a brilhar sobre nós...
Dorme agora
nos braços da avó,
nos olhos da mãe,
nos sonhos do pai...
domingo, 21 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Seus gestos mudos
Por muito tempo permanecíamos
assim, meu pai e eu, juntos em nossas ausências. Simplesmente nos acostumamos
ao som de nossos gestos mudos: ao inexplicável ritual da troca de canal na
televisão, sem que houvesse qualquer troca de palavras; ao bater de talheres no
prato; ao bater do prato na mesa... Alheios àquela sala, àqueles instantes, ao
nosso próprio alheamento... Até que, um dia, os gestos cessaram. E meu pai não
trocou mais de canal, nem bateu seu prato na mesa... E hoje aquele silêncio me
faz tanta falta! Porque o silêncio já não é o mesmo, nem a sala, nem eu mesmo,
sem que soem seus gestos mudos.
sábado, 23 de março de 2013
De toda poesia que há em mim
É difícil
precisar com toda a certeza
o que o meu
coração sente.
Meu coração
já não tem mais braça pra essa maré
e, com
certeza, todo ato de fé é uma ação vã.
Da portinhola
de minha casa
vejo um
céu-grafite esmorecer em lágrimas.
Caem gotas na
alameda de minha porta.
Mas não há
ninguém, além de mim, são.
Aqui acolá,
alguém que
não reconheço,
sôfrega ensopado.
E eu desato
a rir de tal situação.
Fecho a
portinhola.
Descalço as
alparcatas.
Deito na
cama.
Ligo a
televisão.
E não há
mais nada de interessante que eu me lembre de fazer depois.
___________________
(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?um=1&hl=pt-BR&biw=1366&bih=600&tbm=isch&tbnid=nmQP5POYjxPsCM:&imgrefurl=http://pt.gdefon.com/download/foto_chuva_vidro_janela_gotas_cor_bokeh_humor_foto/317515/2560x1660&docid=V0kVabL4f2iOsM&imgurl=http://st.gdefon.ru/wallpapers_original/wallpapers/317515_foto_dozhd_steklo_okno_kapli_cveta_boke_nastroenie_2560x1660_(www.GdeFon.ru).jpg&w=2560&h=1660&ei=dkNOUbOXEOP00gG51YG4Cw&zoom=1&ved=1t:3588,r:60,s:0,i:267&iact=rc&dur=1580&page=4&tbnh=171&tbnw=261&start=50&ndsp=21&tx=96&ty=77)
quinta-feira, 21 de março de 2013
Invenção do mundo (ou daquilo que chamamos mundo)
À estranheza das coisas, que nos salta aos olhos na visão
primeira;
à imprecisão das sensações, dos sentimentos;
à inquietude do ser consigo, com o outro e com o mundo;
ao silêncio do corpo, da alma e de Deus
respondeu a Linguagem
com seus nomes inventados,
tantos-quanto-é-o-sem-fim:
unidades de medida, diversidade de verbos,
numerais, nomes de cores, sabores,
substantivos
abstratos
dando concretude às coisas abstratas...
e outras coisas para se nomear.
E esses nomes inventaram frases
e essas frases se fizeram textos
que fundaram crenças, fatos e formas...
E assim, sob um mosaico de nomes,
enxergamos o mundo
ou aquilo que chamamos mundo.
quinta-feira, 14 de março de 2013
O meu afogar é calmo no mar revolto
O meu afogar é calmo no mar revolto
porque meu corpo já não contesta a fraqueza da vida,
porque minha vida já não resiste à certeza da morte...
Duro é bater-se contra as ondas,
sobraçando uma esperança
de deitar-se à terra firme e mansa.
Árduo é negar, todo tempo, o Tempo
que se abate sobre nossos dias
feito este mar em fúria.
Mas desistir foi-me um gesto de alívio,
que adormeceu meus sentidos
e anestesiou minhas dores.
Deixo que o mar arraste meu corpo
e dê vida a meus últimos movimentos,
sem qualquer intenção que os guie...
Enquanto meus ouvidos, quase surdos,
silenciam eternamente
as vozes desesperadas que vem da superfície...
As vozes desesperadas dos que insistem em esperar.
porque meu corpo já não contesta a fraqueza da vida,
porque minha vida já não resiste à certeza da morte...
Duro é bater-se contra as ondas,
sobraçando uma esperança
de deitar-se à terra firme e mansa.
Árduo é negar, todo tempo, o Tempo
que se abate sobre nossos dias
feito este mar em fúria.
Mas desistir foi-me um gesto de alívio,
que adormeceu meus sentidos
e anestesiou minhas dores.
Deixo que o mar arraste meu corpo
e dê vida a meus últimos movimentos,
sem qualquer intenção que os guie...
Enquanto meus ouvidos, quase surdos,
silenciam eternamente
as vozes desesperadas que vem da superfície...
As vozes desesperadas dos que insistem em esperar.
domingo, 3 de março de 2013
Maldades do tempo
Cada segundo te faz tão menino, brincando com o tempo!
E, ao mesmo tempo, cada segundo te faz tão mais e velho e cansado do tempo.
Ah! E agora, e esse passado que não passa, nem volta? Apenas dá voltas, persiste e assombra?
Maldades do tempo, que escreve um amanhã cheio de promessas sobre o teu ontem, esgotado de tanta esperança esquecida.
Prelúdio
Mas antes de morar em mim, já estavas... Como o filme que se sabe o fim ou o sorriso que se adivinha nos lábios de quem se quer. Já eras o início do amor que ainda não era. Eras a espera da história que ainda havíamos de contar.
Não descobri o caminho para tua vida, apenas fui trilhando os passos que teus olhos traçaram em mim.
Somos
Da manhã cheia à noite exausta,
do silêncio à canção,
do sereno à trovoada,
somos.
Do cinema à nossa casa,
da presença à solidão,
dos poemas às conversas
antes da noite chegar,
somos.
Da despedida ao reencontro,
do teclado ao violão,
dos meninos que já fomos
ao nosso menino que virá,
somos.
do silêncio à canção,
do sereno à trovoada,
somos.
Do cinema à nossa casa,
da presença à solidão,
dos poemas às conversas
antes da noite chegar,
somos.
Da despedida ao reencontro,
do teclado ao violão,
dos meninos que já fomos
ao nosso menino que virá,
somos.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Tez e tecido
Tez e tecido, confundidos,
fundidos no toque dos dedos,
no roçar dos lábios...
A fibra da roupa eriça a fibra da pele...
Quero saber onde termina a camisola de cetim
E começa o cetim da tua pele.
Quero passear pelas tuas curvas
que o tecido fino brinca de manter à mostra,
mas ainda ocultas...
Eu quero tua fome e tua sede,
teu peso, sem pressa,
teu grito, sem dor...
Vem assim, de lingerie,
vestida só de desejo,
poesia em forma de mulher...
Vem inventar mil formas de ser minha mulher.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Chá mate amargo e morno
“Mate
amargo, noite adentro estrada, estranha”*
Bebo chá mate,
Amargo e morno...
Sinto-me um torto...
Vão.
E mesmo, pois, a bebericá-lo, enaltecê-lo, findá-lo,
Sinto o gosto do amargo e do tostado
Preso entre os lábios,
E me dou ao direito de lambê-los lentamente.
Semicerro os olhos...
A xícara vazia de bebida,
A insensatez do gesto,
Vivaldi e suas quatro estações
São um trago só.
Olho pras horas:
Consomem-me as horas,
Os derives
E os deveres
Tragando-me o que o trago me não fez.
______________________________
* Trecho da música "Ilex paraguarienses" da banda Engenheiros do Hawaii.
(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?start=183&hl=en&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=wJeoHEfVkH--IM:&imgrefurl=http://abstratoreal.wordpress.com/2012/10/01/adeus-silencioso/&docid=nwLSGJ3nk55CYM&imgurl=http://abstratoreal.files.wordpress.com/2012/10/xicara.jpg&w=460&h=288&ei=_BAVUaPFCKPO0QHd44HIBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:96,s:100,i:292&iact=rc&dur=432&sig=110806949657666573050&page=9&tbnh=175&tbnw=284&ndsp=23&tx=152&ty=36)
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