quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O teu olhar quieto



Vamos nos dar as mãos
E nos olhar nos olhos.
Sei que o teu olhar castanho,
Substantivo,
E quieto
Confundir-se-á
Com os meus.
Ambos vãos.
A se ater e atear,
A se atar
Num lindo e deslumbrante
Delirante
Debater de asas.

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(Imagem: http://www.google.com.br/imgres?hl=en&sa=X&tbo=d&rlz=1C1RNAN_enBR453BR453&biw=1366&bih=667&tbm=isch&tbnid=06Y05-cYhpGHyM:&imgrefurl=http://gimulek.blogspot.com/2010/11/o-segredo-de-um-olhar.html&docid=_fLfpOx3U-WcxM&imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiItKugNI38HneIU8YnhWUUFGOn5u-bXuD7xO6zsK5vMgBB8UeAluFRH7vD3PGpe316jqBCAW7kjhs1ZumKgDRyMECRU3cNVm3XixnWp1OzuH3HUiCQUhwTucIMlhHZNj-ZrYYcKa7P2jc/s1600/Segredo%25252Bde%25252Bum%25252Bolhar.jpg&w=1128&h=760&ei=8tURUZr0EYmy9gT4voGoBA&zoom=1&ved=1t:3588,r:49,s:0,i:238&iact=rc&dur=807&sig=110806949657666573050&page=3&tbnh=173&tbnw=274&start=40&ndsp=22&tx=113&ty=67)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

À espera

Pulsam, em meu corpo, dois corações, duas alegrias, duas vidas...
Em meu ventre cresce um ventre pequenino, de menino,
e, em meu peito, a esperança de vê-lo fazer-se homem.

Cada dia é um dia a mais para senti-lo
e um dia a menos para o instante em que o terei nos braços,
para o dia em que descobrirei, um a um, seus traços...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Corda bamba

"A esperança dança na corda bamba de sombrinha
e em cada passo dessa linha pode se machucar"
(João Bosco/Aldir Blanc)

Nem o equilíbrio, nem a queda
Nem tocar o céu, nem ceder ao chão
Nem o silêncio, tampouco o berro
Nenhum aplauso, nenhuma vaia...
Apenas um movimento incerto entre a partida e a estada.
 
Algo no meio, sem ser obstáculo
Algo se acaba, sem ser o fim
É um passo à frente, sem ter prosseguido,
um passo em falso entre o teto e o asfalto.

Um sonho oscila entre meu gesto e o teu,
tenta ser firme na corda bamba...
Cada gesto é um extremo da corda,
uma ponta do mundo,
um ponto a alcançar.
                                                                                                                                                                                                                                                                                         
O sonho persiste na corda bamba
Só um fio frágil sob seus pés
o separa da iminência do chão,
da segura conclusão de que não voa.
 
Mas o sonho segue em frente,
sem perdas e sem ganhos,
sem certeza, sem espanto.
Avança, intrépido sonho!
Avança enquanto é tempo de avançar!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Consolo

Para tudo nessa vida há consolo, minha mãe já dizia. A viúva se consola da perda do marido, mais dia ou menos dia. O bêbado se consola da bebedeira do outro dia, nem que seja no bojo de outra bebida. O desiludido se consola da ilusão primeira, cedendo à outra ilusão, ainda mais faceira. O trabalhador exausto se consola da vida amarga em um sonho doce e a dona de casa sofrida liga a TV e se sente menos desgraçada ao ver tantas desgraças que o jornal anuncia todo dia. Consolo... Ele está em qualquer lugar quando se está disposto a encontrá-lo. Há quem diga que o céu é o consolo dos vivos. Há quem ache que a morte é o consolo da vida, como se, sob a terra, aguardasse-nos o consolo de toda dor que sofremos sobre ela. A fé consola os que acreditam. O prazer, os que o desfrutam. A música, os que param para senti-la. Eu, por exemplo, consolo-me com palavras: escrevo-as, leio-as, aventuro-me em pretéritos imperfeitos e logo, logo, reconcilio-me com o mundo e comigo.

No fim, a fome.

Encontrei um homem em seu fim... Seu olhar já se desencontrava do mundo e de mim.  Postei-me a seu lado enquanto a morte lhe aguardava, maternal, e ele me confidenciou: “Faltaram”. Faltaram? Mas quem? Quem faltara a este pobre diabo, justo na hora final? A esposa, os filhos, amigos? “Quem faltou, meu senhor?”. E ele me respondeu: “Faltaram feitos, minha filha... Faltaram fatos, festas, fotografias... Faltei... Faltei comigo mesmo. Faltou firmeza, força, folia! Faltou fome... Faltou fome de viver”. E assim se foi com sua fome, com sua sede de ter sido mais de si.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reprise


Eu me repito sempre.

Mais que isso: eu me insisto, numa ânsia visceral de me fazer existir...

                Como o bem-te-vi que anuncia seu nome,

proclamando seu ser contra o céu.
 
                                                                        Eu me repito sempre,

feito um mantra ou algum refrão,

redescoberto a cada vez que se canta a canção.
 

Eu me repito em prosa, em verso e em papos por telefone...

Me repito em gritos, sussurros e no silêncio de me saber só.

Me reitero, persisto, persigo o sentido

daquilo que ecoa aqui – dentro de mim, dentro de mim.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando se abre a cortina


A cortina aberta revela um outro mundo...

Uma outra sede, que não é nossa, mas que sentimos...

Uma outra ferida, que não a nossa, mas que nos sangra...

Um outro jeito de doer, de sentir fome...

Outra maneira de arder e sentir frio...

E a violência nos atinge, mesmo incólumes

E o aperto nos excita, mesmo alheio...

E ficamos presos numa estranha liberdade

de poder partir quando quiser, mas não ir embora...

E nos livramos, por alguns instantes, de nossas próprias dores,

que só cessam quanto tudo cessa,

quando tudo se reduz a nada mais.

A cortina aberta revela outro mundo,

outro modo de assistir à nossa vida.

Vizinhança


Meus vizinhos, conheci-os todos de relance.

Relance de alegrias, de perdas e amores...

Conheci-os em gritos, em gemidos, em risadas

que escapavam do outro lado do muro,

muito mais íntimos que os cumprimentos vazios

que trocávamos  frente ao portão...


Meus vizinhos, os próximos-distantes,

só os conheci por acaso,

por uma arbitrária convivência lado-a-lado.

Só os entendi pelo hábito

de, volta e meia, romper o muro

erguido entre nossas rotinas.
 

Meus vizinhos diariamente invadiam minha vida com suas vidas,

adentravam minha casa com sua festas, discussões e reformas,

mas de um jeito tão natural e breve

que quase não me perdôo

por não ter mais que um cumprimento vazio

a oferecer frente ao portão.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Num dia claro de verão...

"Que a poesia desse instante me roube a graça
e que a mulher que amo, pela minha insensatez,
me perdoe... Pois meu amor bateu a minha porta,
e vestia tons claros num dia claro de verão."

(Ismael Alves num dia claro de verão)




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Em retalhos

Quando a noite se reparte em luzes, acendendo postes, faróis, letreiros em néon...
E o cansaço da vida se reparte em suspiros, sutis desabafos de um dia ruim...
Quando o olhar se perde no tempo, repartindo-se entre o ontem, o agora e um amanhã turvo...
E os teus braços me alcançam em retalhos, entre  a ternura e a distância...
O mundo inteiro parece caber num grito, num sussurro de adeus, neste texto.