quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reprise


Eu me repito sempre.

Mais que isso: eu me insisto, numa ânsia visceral de me fazer existir...

                Como o bem-te-vi que anuncia seu nome,

proclamando seu ser contra o céu.
 
                                                                        Eu me repito sempre,

feito um mantra ou algum refrão,

redescoberto a cada vez que se canta a canção.
 

Eu me repito em prosa, em verso e em papos por telefone...

Me repito em gritos, sussurros e no silêncio de me saber só.

Me reitero, persisto, persigo o sentido

daquilo que ecoa aqui – dentro de mim, dentro de mim.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Quando se abre a cortina


A cortina aberta revela um outro mundo...

Uma outra sede, que não é nossa, mas que sentimos...

Uma outra ferida, que não a nossa, mas que nos sangra...

Um outro jeito de doer, de sentir fome...

Outra maneira de arder e sentir frio...

E a violência nos atinge, mesmo incólumes

E o aperto nos excita, mesmo alheio...

E ficamos presos numa estranha liberdade

de poder partir quando quiser, mas não ir embora...

E nos livramos, por alguns instantes, de nossas próprias dores,

que só cessam quanto tudo cessa,

quando tudo se reduz a nada mais.

A cortina aberta revela outro mundo,

outro modo de assistir à nossa vida.

Vizinhança


Meus vizinhos, conheci-os todos de relance.

Relance de alegrias, de perdas e amores...

Conheci-os em gritos, em gemidos, em risadas

que escapavam do outro lado do muro,

muito mais íntimos que os cumprimentos vazios

que trocávamos  frente ao portão...


Meus vizinhos, os próximos-distantes,

só os conheci por acaso,

por uma arbitrária convivência lado-a-lado.

Só os entendi pelo hábito

de, volta e meia, romper o muro

erguido entre nossas rotinas.
 

Meus vizinhos diariamente invadiam minha vida com suas vidas,

adentravam minha casa com sua festas, discussões e reformas,

mas de um jeito tão natural e breve

que quase não me perdôo

por não ter mais que um cumprimento vazio

a oferecer frente ao portão.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Num dia claro de verão...

"Que a poesia desse instante me roube a graça
e que a mulher que amo, pela minha insensatez,
me perdoe... Pois meu amor bateu a minha porta,
e vestia tons claros num dia claro de verão."

(Ismael Alves num dia claro de verão)




sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Em retalhos

Quando a noite se reparte em luzes, acendendo postes, faróis, letreiros em néon...
E o cansaço da vida se reparte em suspiros, sutis desabafos de um dia ruim...
Quando o olhar se perde no tempo, repartindo-se entre o ontem, o agora e um amanhã turvo...
E os teus braços me alcançam em retalhos, entre  a ternura e a distância...
O mundo inteiro parece caber num grito, num sussurro de adeus, neste texto.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O navegante, o navegar



Me sinto só!
Dói confessar isto.
Mas é esta minha única verdade.
A única.

O que minha vista alcança com estas lentes,
Que pouco a pouco (lentamente) se desgasta,
É um ínfimo sentimento de prazer,
Que jaz

E me traz agonia.

Navego, hoje, em mares nunca dantes navegados,
E em paragens em mim desconhecidas.
Para onde vou, pergunto.
E o coração surpreende

Estrangula-me em aperto.

E sinto vontade de chorar.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Além do primeiro ato

Antes do primeiro ato, o sonho.
Atrás de cortinas cerradas,
Deus sonhava que era homem e ria.
Todo mundo, todo medo, todo mito
esperava o seu início na coxia.

Junto ao primeiro ato, o verbo.
O início se confunde com seu anúncio
e o primeiro ato, então,
é reconhecer que a peça começou.
                                                                  
Depois do primeiro ato, segue a peça,
desenrolando-se como o fio de uma vida...
Se o fim da peça é silêncio,
só o próprio fim dirá ou calará um dia,
quando as cortinas se cerrarem, enterrando o sonho,         
retornando o medo e o mito à coxia.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Paz, de passagem

Queria celebrar os dias de paz
Que a tevê anuncia,
Que o jornal escancara,
E que a moça da rádio comemora, enquanto chora

Mas para mim não há paz
O que há é uma passagem, ilusória,
Entre o triunfo da falsa vitória
E o horror de outra guerra,
que já se faz.

Lírica

Não respeito o fingimento poético
Meu eu-lírico sou eu mesma
É meu sangue que sangra o poema
É meu peito que dói quando escrevo

Já não quero saber de mimese
É a minha solidão que se despe
Na busca insana da companhia
De alguém que entenda estes versos

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Desde o primeiro instante

E eis que eu, a casas, quadras, bairros de distância, esbarro em ti.
Como o distraído passante da rua que, tão alheio do chão, esbarra na lua...
Como o amante de livros que, do outro lado da vitrine, esbarra em seu favorito...
Como a cantora desconhecida no bar que esbarra, surpresa, em alguém a cantar...
Esbarrar assim, de longe? Que bobagem! Que fantasia!
Mas assim esbarrei em ti... Porque algo em mim deteve-se ali, em tua imagem, em tuas palavras.
 E quando algo nosso se detém no outro, seja o outro a lua, um livro, um homem no bar, não há gravidade, vitrine, nem mesmo desesperança que façam do que se fez perto, distante.
E você, amor, fez-se perto, desde o primeiro instante.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O gigante e a menina

Quando menina, mirava a imensidão do mar distante, perguntando-me: "Quantos segredos ele esconde? Quantas sereias? Quantos tesouros? Quantos piratas, navegando em seu corpo?". Então um dia, decidi vê-lo de perto... Decidi desvendar, do gigante mar, todos os mistérios. Atirei-me à primeira onda fria e descobri que o mar em que eu então nadava era o mesmo mar que, à distância, eu via. Os segredos, quem guardava, quem escondia, era meu peito de menina.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Multidão de uma só


Revirando-se sob o mesmo nome,
sob a mesma casca de homem,
mora em mim uma multidão:

Crentes, pagãos,
juízes e condenados.
Putas, beatas,
populares e solitários.

Cada qual reivindicando um gesto que seja seu,
uma linha torta para declarar “sou eu”.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A travessia


Atravessa o portão, minha querida,
mas não deixa a menina que há em ti atravessar!
Deixe-a brincando aqui comigo,
olhando o portão e me perguntando
o que ainda há pra olhar.

Atravessa o portão, minha querida,
mas deixa para tua mãe ao menos um olhar...
Guardarei como se fosse uma promessa
de que um dia voltarás
a atravessar este mesmo portão...
Quem sabe, com este mesmo olhar.

Atravessa o portão, minha querida,
que eu fico aqui me perguntando
“Quem será que voltará?
Uma moça arrependida,
uma mãe com sua filha
ou a mesma mulher decidida
que agora vejo atravessar..."

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Solidão Inteira


Prefiro o silêncio seco da tua ausência
ao incômodo silêncio da tua presença...

Prefiro o silêncio morto das coisas,
do teto, do piso, dos quadros
ao silêncio vivo, inquieto,
com o qual tu enchias o quarto.

Prefiro essa solidão inteira
em que me deixaste
à solidão que dividíamos, 
cada um em sua metade.




terça-feira, 10 de julho de 2012

Eu, verbo


No início era o verbo “Sou.”
Seco, irrefletido, sem explicação que lhe coubesse
Depois impuseram o verbo “És!”
E passei a enxergar-me à imagem e semelhança dos outros,
Sem compreender o limite entre o que eu “era” e o que “éramos”

O tempo gestou a incômoda pergunta “Serei?”
E percebi que essa indagação seria uma sombra enquanto eu fosse...
Hoje, pouco mais conformada, pouco menos sensata,
Já não questiono a pessoa ou os números do futuro
Caminho, entre arrependida e aliviada, para o inescapável e eterno “Foi...”

domingo, 8 de julho de 2012

Quando o homem parou de cantar

De súbito,o cantor calou-se, sem saber que, consigo, calava a rua. As janelas, abertas para sua canção, cerraram-se por dentro, escondendo uma saudade. E eu, que ouvia a cantoria ao longe, busquei uma nota no silêncio da noite, mas não encontrei nada – apenas minha vontade de escutar...
O cantor calou porque pensava não ser ouvido... Coitado! Não sabia que a rua, parecendo dormir, na verdade, cantava com ele.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A minha vida

Anjo coração Anjo


Bom-dia, meu nome é Carmen Lúcia 
E sou um anjo.
Eu moro no céu, como todo anjo.
Eu adoro estudar. 
Minha matéria preferida é matemática. 
Eu sou um anjo do bem 
E não gosto de anjo do mal.
Se eu pudesse, eu não deixava 
Ninguém poluir o ambiente.
Eu adoro comer lasanha 
E muitas coisas assadas.
Eu adoro a minha vida. 
Ela é alegre e bonita.


(Ismênia Poliane)




(Ismênia Poliane)

Marulho



Vão se lá contigo meus bons anos, moça.
É, é em vão tentar agarrá-los com braços miúdos.
Mas, se muita for a nossa sorte,
Guardaremos algumas fotos na gaveta,
E outras boas lembranças na memória.

É que a gente envelhece, amor, mesmo sem ver a hora.
O garoto que corria com seu pai há tempos atrás,
É quase pai agora.
E não mais lê gibis (revistas de heróis em quadrinhos),
Mas livros, romances e poemas.

Ah, amor, o menino que fui
Só faz parte da minha imaginação hoje.
E é difícil dizer com toda certeza o que é real ou não.
Só às vezes quando eu fecho bem os olhos
Posso vê-lo com seus brinquedos,

E desato a chorar.

Onde ficaram os desenhos e os primeiros poemas que eu fiz?
Não há mais como encontrá-los, tenho certeza,

Que se foram com as primeiras paixões,
O primeiro marejar das ondas.

Mas jamais deixarão de existir,
Eu prometo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

As primeiras ondas [Texto Erótico]

Senti medo. Imagino que sentiste também. Mas teu medo disfarçou-se, cortesmente, para que o meu ficasse à vontade para sê-lo. Tua respiração alterada, quase contida, alcançava-me feito um gemido. Queimava a pele. Eriçava os pelos. Eu me perdia na imensidão de teus braços, na vastidão de teu corpo. Diluía-me, dilatava-me em teu calor. Havia um traço de avidez em teus olhos, em tuas mãos que me despiam com ternura, uma ternura quente que eu não conhecia até ali. Parecia impossível ir adiante e tolo tentar voltar atrás. Eram teus olhos nos meus o único motivo para sentir-me segura da entrega. Esquecia-me do medo no escuro dos teus olhos... E meu olhar escorregava por teu rosto, tão bonito e quase sereno, meio oculto pela luz fraca. O medo agora parecia vão. E era.
Foi natural e belo, visceral e sublime. Teu corpo foi de encontro ao meu como uma onda que se desfaz sobre a areia. A praia, ainda encharcada da passagem da primeira onda, acolheu então outra, mais forte, mais intensa. E outra. E outra. Os beijos úmidos indo cada vez mais longe. Mais uma vez. E mais outra vez. E ainda mais longe. A onda precipitava-se de um modo tão profundo que parecia sôfrega do toque da areia. E a própria areia levantava-se, no desejo por mais uma onda, por mais um beijo.
Assim meu corpo conheceu teu corpo... Assim desaguaste tua paixão em mim.



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Perdoe esses meus olhos

Vivemos assim tão alheios do que é nosso, tão estrangeiros de nosso próprio território... E não é só em relação à cidade, antes fosse. É em relação à nossa arte, à nossa língua... Até mesmo, à nossa gente. E inventamos mil desculpas para acreditar que do “lado de lá” é melhor. Hoje não acredito nisso. E não por ufanismo barato... É que quando mais olho pra nossa arte, pra nossa língua, pra nossa gente, mas acho que tem coisas para olhar.

Perdoe esses meu olhos que te olham com olhos de passante,
que te olham sem olhar, só te roçam de leve.

Perdoe esses meus olhos
que não celebram tuas curvas como mereces,
que não se perdem em teus desvios,
nem pousam nos teus pontos mais íntimos (esses que tu mostras só pra mim).

Perdoe esses meus olhos, minha menina, minha mulher.
Perdoe não acompanhar teu alvorecer como um espetáculo,
teus primeiros raios de luz, teus primeiros barulhos ao acordar.

Perdoe esses meus olhos frios
que não contemplam teu frágil amadurecer,
teu crescimento rápido e silencioso...

Perdoe esses olhos que passam, ilesos, por tuas cores.
Perdoe-me se não agradeço todo dia por esses teus braços de luz.

Perdoe a moradora relapsa, que te esquece em meio a nomes sedutores de lugares distantes, nomes estrangeiros, além-mar, além-oceano, além do que eu possa imaginar. Perdoe esse meu gosto pelo que ainda não provei, essa busca agitada pelo que nunca senti.

Perdoe não parar para admirar tua beleza dividida entre verde e concreto...
Não sei descrevê-la... É uma aparência inquieta, que parece mudar quando se dobra a esquina...
Perdoe a caminhante distraída que te olha todo dia, sem se admirar um minuto que seja.

Perdoe esses meus olhos que não aprenderam a te olhar.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Tardes quentes


O sol desta tarde bateu em meu rosto,
Queimou-me as pálpebras,
Os lábios,
O sono.

Mas, meu irmão, não se assuste.
As tardes de minha cálida Teresina são assim,
Queimam o juízo dos homens, e de suas mulheres,
Que saem para labutar.

Ouço seus filhos correndo nos quintais de suas casas.
Moleques!
Benditos sejam.
São as últimas crianças, findo esses tempos.

O sonho


Emergira com o fôlego. Acordara de sobressalto, assustado. Respirava com ruído, e impelia, expelia ar em seus pulmões com violência. Ficou um tempo a olhar para os lados, tentando em vão saber onde estava. Já calmo, ouvia os sons que vinham de fora do quarto.
Desvencilhou-se dos lençóis e foi, pouco a pouco, descalço, de encontro à porta do recinto. Ao chegar à porta, fitou uma criança. Era uma menina. Viu sentada numa cadeira de balanço, mas não balançava na cadeira, permanecia quieta a olhar algo; tanto, que nem o reparou.
Tem essa menina a tez morena, gorda, e não parece ter mais do que 6, 7 anos de idade. Vestida num vestido de tons bobos, roso. Têm sardas e os cabelos escuros cacheados presos em tranças que só uma mãe muito zelosa é capaz de fazer.
Assustou-se. A menina era a mesma da foto que um dia vira há muito, demasiado tempo atrás. E cada traço da mocinha era o mesmo da foto de tons maculados de sua antiga namorada, com quem vivera intensa paixão, que se desfez.
Enlouquecera? – refletia.
Começava a se perguntar se a menina era um delírio. Tinha a certeza de que ela era a criança da foto que vira a tanto tempo atrás. A criança que depois se tornou a mulher que tanto amou... Isso lhe trouxe tontura, e a tontura o levou ao chão, e a violência da queda, o desmaio.
Acordou novamente a sobressalto. Mas desta vez, cálida mão lhe apertou o antebraço direito. Sustou-se. Olhou para a mão e, com os olhos rápidos, para o dono daquela. Era uma mulher... E ele a conhecia.
 Tinha ainda esta mulher as pupilas mui negras, e cabelos pretos com cachos nas pontas. Mas desta vez, diferente de quando se viram pela última vez, trazia consigo um olhar de ternura e lindo sorriso.
Achou-lhe diferente. Parecia tão mais velha do que lembrava, e via que a sua basta cabeleira trazia alguns fios brancos. Era ainda tão gordinha quanto lembrava. E tão linda, como outra jamais vira.
Ficaram então em silencio... Ela, então, tomou a palavra. Disse que há sete anos passados ele havia sofrido terrível acidente, e que ficara todos esses anos em coma. Parou de falar... Inspirou um pouco de ar e lhe disse que tiveram uma filha. “Ela corre agora lá fora”, disse. “Brinca quase o tempo todo com o meu irmão”. “É uma menina linda”. “Eu acho que puxou pra mim”.
Neste exato momento a menina entra, risonha, nos braços do tio.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A imaginação


Dos dedos do artista
saem coisas bonitas
e preciosas como arco-íris,
vento e sol.

Dos dedos do artista
saem rios, animais
e também uma chuva
azul com águas.

Dos dedos do artista
saem livros, papeis
e também lápis
coloridos e brilhantes.

(Ismenia Poliane) 

(Ismenia)

terça-feira, 5 de junho de 2012

A dama por detrás do rosto, o rosto por detrás da tela.


Para pintá-la precisava de certo distanciamento. Afastava-se do calor dos braços macios, do aroma de fruta doce... Só o que se prendia a ele era o olhar – firme, profundo. Costumava dizer para Luísa que ela tinha olhos de enxergar por inteiro. Seu olhar desvendava tudo: o ciúme, a melancolia, a saudade... Como era difícil manter os olhos nos olhos dela sem perder-se, sem esquecer da tela, da obra, de tudo! Engolia em seco o desejo. Ela não era sua. Não naquele quadro. Ela era do mundo. De todos que a mirassem, que admirassem seus cabelos cheios, que tentassem adivinhar quem era a dama por detrás daquele rosto mudo. Que tristeza a fazia quieta? Que amante a fazia nua? Seus mistérios de agora seriam mistérios de outros tempos. Seus segredos girariam sobre outras cabeças, sem resposta, sem cessar. Era dele a missão de fazê-la eterna. De gravar na tela aquele olhar que o invadia.
Pincelada por pincelada, o suor dele, o cansaço dela. Ele não exigia de Luísa que ficasse imóvel, só pedia para que sustentasse o olhar. Ela não se queixava, não questionava. Entendia a brasa nos olhos dele e sabia que era uma brasa diferente de quando eles se tocavam. Compreendia os movimentos agitados: mudanças de ângulo, o olhar querendo dividir-se entre ela na tela e ela na rede. Se ele partisse no meio naquele momento, ela entenderia... Sentia uma loucura parecida quando subia no palco. O êxtase, era o que queria do público. Doava-se inteira por isso. Doava-se sem medo por um segundo de êxtase da platéia.
Também era atriz quando posava para ele. Ele, seu diretor, preparava a luz, a posição de seu corpo, o cenário. Preparava até o seu silêncio: por vezes pintava-a de lábios entreabertos como se estivesse prestes a dizer... E nunca dissesse. Em outras, pintava-a de olhos perdidos, como se seu silêncio fosse o de uma recordação. Ele era minimalista em sua arte. E ela respeitava essa entrega. Queria ajudá-lo como pudesse. Não esperava ser nenhuma grande musa. Para ela, não havia nada de fantástico em seu rosto comum. Nada que não se achasse na mulher da padaria. Mas ele via algo. Algo em seu olhar.
Quando ele sentava-se ao lado dela, ela entendia que havia acabado. O pintor repousara, enfim. Ele não mostrava logo o resultado. Queria olhar um pouco mais antes de apresentar-lhe a versão definitiva. Por vezes, nunca a mostrava. “Uma peça ruim?”, Luísa perguntava. Ele aquiescia com um sorriso. Então, como se nunca houvesse ocorrido, a distância se desfazia em um enlace de corpos.

sábado, 2 de junho de 2012

A chuva e dança, saudade de minha infância


Se há uma coisa da qual sinto saudades,
Nos dias de melancolia,
É da chuva.
Mais especificamente, de dançar na chuva.

Sinto saudades de correr,
De braços abertos,
Com os moleques e meninas de minha infância,
Que desconheciam a tristeza de um bairro pobre.

Ah, se vocês soubessem como eu sinto saudades disto.

Lembro-me de chutar poças de água,
Às quais encontrava no caminho.
E tarde da noite, quando não do grito de meus pais,
Voltava pra casa, todo sujo de lama.

Depois de um tempo,
Que não demorou muito,
Fui proibido pelos meus pais de sair de casa, quando chuva.
Nem é preciso dizer que fora uma tortura para mim.

Até que um dia eu cresci. Claro,
Ainda ouvindo de minha mãe, não mais do meu pai,
A restrição de não mais sair, quando chuva,
Mas era tarde demais, eu dizia.

Pois agora adulto eu era 1/bilionésimo dono do meu destino.

Infelizmente, já não tinha mais graça sair de casa neste tempo.
Pois eu não mais via os moleques e as meninas de minha infância,
Mas adolescentes como eu, alguns já adultos.
E eu morria de vergonha de chutar poças de água.

Daí, então,
Resolvi olhar os que agora
Chutam as poças,
Da minha janela. 

Mulher sem nome próprio

- Bom dia. Preciso falar com... Com a...
Com quem era mesmo? Se bem que tanto fazia. Quem quer que fosse, de nada valeria. Necessidade não tem nome, tem pressa.
E daí se não lembrasse o nome dela? Tanta gente que ele não sabia o nome. Tanta gente que ele sabia o nome e não se importava. Ninguém precisava ter nome. Nome próprio... Próprio para quê? O nome não garante nada. O que importa é a serventia. Isso sim é importante. As pessoas deveriam ser chamadas pela sua área de interesse. O motorista, por exemplo, ele era o TRANSPORTE. A vizinha era o PRAZER. O patrão era o DINHEIRO, claro. Muito mais fácil, muito mais franco.
- Com quem o senhor deseja falar?
Que bobagem! Com ninguém! Não tinha querer nessa rotina. Tinha dever. A vida inteira dele era um verbo no imperativo: “DESCE! ENTRA! ESTUDA! CRESCE! TRABALHA! CASA! TRABALHA! ACORDA! TRABALHA!”
- É... Quero falar com a...
Ela não tinha nome, como ele. Ele era alguém, alguém qualquer. Ela, pra ele, era ninguém, era nada. Era pior que a... Era uma. Qualquer uma. Mais uma. Mulher sem nome próprio.
- Quero falar com sua patroa.
- A dona Dalva?
- É, a dona Dalva.
Dalva, era esse o nome da necessidade. Podia ser gorda, magra, triste, feliz, saudável, moribunda... Que diferença fazia? Ela era a “dona Dalva” da secretária, o EMPRÉSTIMO dele, ninguém de tanta gente... E ele? Ele era um pronome indefinido. Um cismar silencioso. Um grito... Sufocado na garganta.

segunda-feira, 28 de maio de 2012


Mais uma vez sonhei contigo, Jô.
Estavas tão linda e tão idílica que não resisti,
Corri em tua direção.
Mas não findo o teu encontro.
Assim mesmo não cansei.
Pela manhã, já não mais adormecido,
Me pus a pensar em ti,
E, assim, pensando,
Perdi-me em devaneios.
Não a sonhar romances fantásticos,
De finais novelescos,
Mas a pensar em coisas simples,
Como uma bucólica conversa, servido o café.
Delonga,
São sonhos que tenho.
Saudades. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Percurso

Percorro teu corpo, cada canto e recanto, cada pedaço, querendo entender teus mistérios e escutar teus silêncios... Percorro teus olhos e sinto que me percorre as veias, que me toma a noite e o peito. Invado-me de ti... Como o corpo que se invade da sede. Como o louco que se invade do sonho.

Distante

Há dias em que te sinto distante como se houvessem erguido mil muros entre meu corpo e o teu, como se minha voz caminhasse mil léguas até te alcançar.
Há dias em que te sinto distante, como se houvessem passado mil eras entre o que fomos e o que somos, como se não pudesse romper a distância entre nossas mãos.
E tudo que eu diria, se soubesse como, seriam mil razões para que ficasses... Repetiria mil vezes o quanto te quero por perto.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Balaio


Vieste

No balanço das águas,

Frágil,

Com a mais leve bruma.

Vestida num cetim bordado

De cores claras,

E margaridas.

Os lábios nus e os cabelos soltos,

Envoltos

Os pés de areia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Beijo inventado

Quando ele me disse que partia
Quis pedir para que ficasse,
Quis pedir para partir com ele,
Ao invés disso, disse apenas “adeus”

Para abrandar as dores da saudade
Compomos uma poesia
Para que fosse nossa ponte,
Nosso caminho traçado entre o presente e o passado

Lê-la seria como saborear um eterno beijo não-dado
Que seria o mais bonito de todos os beijos
Porque não seria vivido de um fôlego só

Seria dado sempre, a cada vez lida
E a cada vez dado, seria como outro
Como um beijo novo de dois antigos amantes

Uma poesia para amar de novo,
Ou para nunca deixar de amar...
Para inspirar outros beijos, de outras bocas,
De outros amores, de outros tempos...

terça-feira, 8 de maio de 2012

Refletir-me

Encaro-me,
mas neste fitar
já não sou a mesma.

Os meus olhos postos em mim
invertem-me, revertem o movimento,
devolvem-me o olhar...
Convertem-me em algo novo -
os mesmos olhos com outro olhar.

Neste cismar, penso-me;
Em me pensar, perco-me;
Em me perder, mudo-me.

Em meu olhar, busco-me:
busco a outra sobre a mesma,
busco a mesma sob a outra.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Confissão

Em homenagem a mais um dia 26, sinal de mais um mês da nossa história, um pequeno texto sobre o início de nosso romance...


Meu amor era tímido e ávido
feito um garoto sozinho, em meio à festa
Sem saber onde pôr as mãos... Cheio de medo e vontade.
Querendo chamá-lo pra dançar.

O peso dessa pena

Há momentos em que a saudade que levo me é leve feito uma pena de pássaro.
Em outros, sinto-a fortemente, como se fora a pena de um condenado.
Creio que o tanto que esta me pesa, depende do peso com que volto os olhos para trás.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Minha resposta para o silêncio

Escrever é minha resposta para o silêncio.
Não para o silêncio dos outros, mas para o meu próprio.
É minha forma de falar às coisas que em mim calam,
de tocar os terrenos que em mim são alheios.
E à minha falta de coragem de encarar as minhas crenças,
e à minha timidez de declarar os meus anseios,
revido, respondo, rebato com a ousadia de um verso.

sábado, 14 de abril de 2012

Partilha

Partilha comigo os primeiros barulhos da manhã que nasce,
os primeiros raios que invadem o quarto
o primeiro abraço que nos confunde em um só.

Partilha comigo o caminho que nos espera,
a esperança de mais um sonho
despontando no peito.

Partilha comigo a preguiça do fim de tarde,
a beleza do sol se pondo
em um instante que dispensa qualquer palavra.

Partilha comigo o cansaço que nos toma a noite,
a paixão que me toma a mente,
a delícia de amar sem medo.

Partilha comigo tuas angústias...
E eu partilho contigo as minhas.
Não sei se assim serão menores,
Mas, talvez, possamos deixar nosso coração mais leve.

Partilha comigo tua poesia,
teu olhar tão doce,
tuas mãos tão macias...

Partilha comigo um amor,
O nosso amor.
Uma história,
A nossa história.

Partilha comigo o sorriso de nosso filho.





Essa linguagem do corpo

Será que meus braços já pediam pelos teus
E eu é que não entendia
Essa linguagem do corpo
que dispensa qualquer palavra,
que só se traduz no gesto?

domingo, 1 de abril de 2012

Um instante que seja!

A saudade, essa vontade irônica de voltar, faz gritante o que passava despercebido, faz crescer cada alegria breve. E eu, que passava sempre ileso por teus braços, hoje peço um segundo do teu abraço, um instante que seja! - Que seja nosso.


domingo, 25 de março de 2012

O segundo de um beijo

Então me beijas...
E por um instante
(que valerá por todos os instantes)
Sou teus lábios nos meus
 e só.

Oscilante

É que até minha certeza se confunde em teus braços
E eu já não sei se há cura para nossas loucuras...
Eu já não sei se alivia ou se dói.

De um peito em turbilhão

Me encaixo em teus braços
E tuas mãos se encaixam em minhas mãos


Se vai o meu receio
Em teus braços, todo medo é vão


O mundo silencia
E só escuto o peito em turbilhão

domingo, 18 de março de 2012

Querer, verbo transitivo

Querer é um verbo transitivo, pois quem quer precisa de um objeto para completar-lhe o sentido. Aquele que quer, quer algo ou alguém - uma carência tão direta que corrói. Quem quer não quer nada que o separe de seu objeto. O que seria do sujeito sem seu alvo? Sem o objeto de sua oração? Em qualquer tempo, alguém quer algo ou alguém... De qualquer modo, alguém quer algo ou alguém. O querer pede um alvo, ainda que o sujeito seja paciente, ainda que o objeto não seja comum ou concreto, ainda que o querer seja impróprio. O alvo do querer pode ficar subentendido, mas ainda está lá, no centro da necessidade. Sim, querer é um verbo transitivo, porque nosso desejo é objetivo e direto.

sábado, 17 de março de 2012

O coração da cidade

O coração da cidade pulsa automóveis, lojas e uma multidão de gente... Gente que corre de um lado para o outro e que vira de lado para não ver o outro.
O coração da cidade parece nunca parar... E por mais barulho que faça, parece nunca ouvir... E por mais tristeza que abrigue, parece nunca sofrer. Ele pulsa sangue e repulsa, sem cessar, sem pesar.
Não é movido a sentimento, nem a razão... É um coração diferente movido a financiamentos e investimentos. Em seu interior, correm automóveis e pernas, já meio autômatas.
Um órgão-máquina no centro de nossa rotina mecânica.

sábado, 10 de março de 2012

Este instante não tem fim

Mas este instante não se encerra
É um eterno caminho no descaminho de teus lábios
E, em nossos braços, cultivamos um abraço sem fim.

Sim, este instante não se acaba
Meus olhos nunca terminaram de te descobrir
Nossos corpos estão se conhecendo – ainda e para sempre!

terça-feira, 6 de março de 2012

Em cena

A platéia do outro lado espera o riso,
Mas, em meu peito, a noite é tragédia.
Visto então a minha máscara, o meu sorriso.
Esta alegria, eu finjo até pra mim.
Às vezes é bom perder-se, assim, no papel...
Sou eu minha grande mentira.


sábado, 3 de março de 2012

Meu chá mate tostado

Passeio com as minhas mãos por sobre as coisas.
Tenho os olhos fechados.
Guio-me apenas pelo som daquilo que ouço
ou pela aspereza daquilo que toco.

Paro um pouco...
“Minha cabeça dói”.
“O mundo dói”, aquiesço.
E sigo a minha vida, por um instante, entristecido.

Vai-se lá, Deus, minha fé.
Perdoe
O estupor.
O medo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Lembranças

Estávamos de um jeito que eu não saberia definir se era próximo ou distante, unidos ou separados. Sabíamos que aquilo era uma despedida, mas há muito a adiávamos. Toda minha esperança já tinha desesperado e agora esperava a última palavra, sem saber como aceitá-la. Ele me perguntou como seria dali para frente. Então narrei para ele o que eu via: nossas lembranças que, de tão lindas, ainda não eram! Contei nossas histórias “dos dias depois de amanhã”. As manhãs e noites que sonhava. E até sonhos que nunca tinham me visitado, que surgiram naquele momento, brotando, crescendo, querendo ser divididos. “Como eu pudia ter certeza de tudo isso?” Ele me indagou. Toda minha certeza estava ali. Era o olhar dele, do qual eu simplesmente não conseguia desviar. Era o aperto que me consumia o peito quando pensava no fim. Poderia ser que essa certeza não fosse pra sempre. Mas era naquele momento, tão forte e tão inegável que eu a sentia mais intensamente que minha própria respiração. Eu sentia esta certeza pulsando comigo. Não havia palavra para nomear aquilo. Então disse que sabia. Sim, eu sabia, e sentia que nossas lembranças seriam ainda mais bonitas do que aquelas que eu imaginava.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Solidão

Silêncio no portão de casa. Na calçada. Na rua. Na parada de ônibus. No próprio ônibus. Na entrada do trabalho, um “como vai” desinteressado. Uma mensagem de quem nunca mais encontramos – uma alegria em silêncio. É noite. Um “até amanhã” corta o silêncio. Mas o outro já foi, antes que se dê a resposta. De novo, silêncio na parada. No ônibus. No caminho de casa, apenas o barulho dos próprios passos. Em casa, as crianças assistem à TV em silêncio. Silêncio no quarto... Pela janela, luzes, barulho, risadas... A cidade é uma espécie de solidão acompanhada.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Aurora

Acordo sobre teu peito...
Tu és a própria aurora
A conduzir-me pela mão
A um novo dia.

São estes teus braços que afastam a noite escura
Teu sopro quente em minha face é a primeira brisa
Um beijo teu e encho-me de luz:
É minha alegria que, a teu sinal, amanhece.

Pequeno texto sobre grandes mudanças

As grandes mudanças são quase invisíveis, ocorrem de dentro para fora, de si para si. Erguer ou derrubar muros? Proclamar novos tempos? Tudo isso é anúncio de mudança, o que muitas vezes é apenas alarde para convencer os passantes... Grandes mudanças são silenciosas, quase inacessíveis. O que se percebe delas são indícios. Capta-se no ar que algo que era, embora continue a ser, agora é de um jeito novo.
Alguns afirmam que são lentas. Acho complicado dizê-lo, porque delas não se sabe o início... Como saber o andamento? Quem pode determinar, com precisão de relógio, quando um menino se torna homem? O momento exato em que uma revolução se iniciou? Não há quando nem onde para coisas assim. Vê-se sinais da passagem que são mais sensação do que fatos, mais percepção que visão.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Homem da Torre (ou Imo)


Construíra a torre e se escondera nela.
De tudo e de todos.
O tempo passou e, com ele, todos se foram.
Mas sempre vinham à torre os que o amavam.

Fora um dia um homem amável.
Daqueles que dão flores para a amada e saúda os gentis.
Mas um dia, fatídico dia, fora apunhalado pelo amor
E perdeu toda a fé no calor do próximo.

Escondido na sua torre,
Não se via mais do que o seu rosto, se se tivesse sorte.
Comia? Vestia? Amava?
Ainda amava?

A torre, feita de pedra, exibia suas brechas.
Mas mesmo com os olhos muito argutos
Não se podia ver muita coisa,
Tamanha a escuridão de seu lar.

Eis que um dia, no céu de estrelas,
Rebentou violenta tempestade,
Que transbordou rios e destruiu casas.
Deixando todos sem lar, comida e em estado de pânico.

Para a surpresa de todos,
O homem que há muito, muito tempo se escondera na sua torre
Abriu-lhes as portas de sua casa, e fito impassível no seu olhar,
Deu-lhes comida, abrigo e cobertores.

No mais, silêncio.

Não se sabe quanto tempo ficaram ali...
Não cabe medi-lo, alçá-lo, meça-lo.
Como um profundo sono,
Houvera início e fim.

Quanto àqueles que amavam o homem,
Melhor lhes teria sido perecer vítimas da tempestade.
Pois diante deste, descobriram-no escondido.
Muito mais escondido em seu imo do que achavam.

Jamais iriam reencontrá-lo.